quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Parte III - A mensagem

O jovem lenhador não levou consigo um machado, mas
uma espada bastarda ou, como diria alguns, espada de mão-e-meia pelo fato de não ser necessárias ambas as mãos e mesmo assim o uso de um escudo não era aconselhável. Era incomum o uso delas a não ser pelos guardiões do oeste, e o jovem Handor por vezes protegeu os Vales da Aurora, se aventurando além das fronteiras. Seu veloz cavalo agora descansava no celeiro da taverna Pedra Rochosa, enquanto o próprio se encaminhava para o salão.
Lá estavam eles: Abel e Kraus. Grande e forte, Kraus era
como uma montanha de músculos, sempre com seu grande machado de duas lâminas. Já Abel era o oposto em estatura e na presença de músculos, mas servia de cabeça para a dupla e assim muitas das vezes definia o rumo das aventuras. Diferenças inseparáveis estavam ali bebendo e comendo enquanto conversavam sobre assuntos diversos.
- Os ventos que sopram do leste nessa época costumam definir
um clima agradável de verão. Poderíamos nos adiantar em nossa viagem para o porto, aproveitando os clientes ansiosos por gastar suas ricas pedrinhas brilhantes. – disse Abel com o olhar brilhoso e longínquo.
- Essa carne de porco está uma delícia! – disse Kraus
mastigando mais uma coxa de sua refeição.
- Sabe meu caro Kraus. Às vezes acho que falo sozinho.

- Teremos tempo para conversas após a batalha. – disse
Handor se aproximando da mesa.
- Batalha? Finalmente boas notícias. Não agüentava mais
esmagar cabeças de alho. – disse Kraus aliviado.
- Handor! Que bom vê-lo por essas bandas. Que proposta traz
para nós?
- Preciso mais uma vez da ajuda de vocês. Dessa vez de tudo
que puderem me dispor.
Um silêncio tomou conta da mesa com as palavras pesadas
do jovem guerreiro. Até mesmo Kraus parou de comer, pôs-se de pé, colocou seu grandioso machado apoiado no ombro e disse:
- É hora do pau!

Handor sabia que o melhor lugar para se procurar ajuda
quando se tratava de uma peleja era numa taverna, principalmente quando nela podia se achar Kraus e seu machado. O tempo corria. Logo estariam nos portões do Forte.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Parte II - A mensagem

A mensagem foi entregue e a carta caiu da mão trêmula
do senhor, jamais vista dessa forma pelos seus conterrâneos, costumava sempre demonstrar punho de ferro. Obstinado em seus passos longos, deixou a grandiosa casa e uma voz preocupada longínqua em seus pensamentos o atingiu.
- Meu senhor, aonde vai com tanta pressa? – disse sua senhora.
Ele parou por um momento, respirou fundo com seus olhos
experientes fechados, volveu-se e disse:
- Reúna o conselho, minha querida. Diga lhes que estarei de
volta em breve, antes de seus calcanhares preguiçosos alcançarem o alto da colina.
E num salto pôs-se na sela do cavalo que pertencia não ao
mensageiro, mas ao estado. Nos olhos conclusivos da senhora aquilo só podia significar duas coisas: dada a necessidade de reunir o conselho, algo terrível havia acontecido no reinado e por ele não usar de seu próprio cavalo outra mensagem devia ser entregue urgentemente.
...
Um jovem foi avistado deferindo um golpe com seu machado,
dividindo um tronco de madeira em dois, e após limpar o suor da testa com as costas de seu antebraço, também pôde perceber o cavaleiro apressado se aproximando rapidamente. O cavalo parou e eles se entreolharam por um instante, nostalgia de um conflito antigo estava no ar, e o lenhador demasiadamente preocupado com aquela visita jamais esperada, perguntou:
- O quê aconteceu a ela? Diga-me!
O senhor de barbas brancas desmontou e foi de encontro ao
jovem que se surpreendeu com a falta de postura com que ele caminhava. Ele parecia querer falar, mas demonstrava falecer, o jovem deixou cair seu machado e ajudou o senhor sentar-se ali mesmo onde a lenha era cortada.
- A guerra está em nosso encalço! – disse o novo mensageiro,
agudo e aos poucos fraquejando. – O Forte da Rosa...
- Não! – foi interrompido pelo urro desesperado do jovem que
se moveu para longe e de costas para o mensageiro.
-... Não irá agüentar muito mais. Estão pedindo suprimentos e
todas as espadas que conseguirmos. Você sabe que não temos força nem velocidade suficiente para deter qualquer ataque àquele forte. – uma pausa fria. – Ela está lá...
- Você a pôs lá! – virou-se novamente e esbravejou sem tal
cuidado que até sua saliva incontrolada foi expelida. – Você a tirou de mim quando tudo que eu queria era protegê-la!
- Ela é minha filha! – tentava puxar forças novamente para seu
pulmão. – Você acha que eu não quero protegê-la? Foi por causa de suas aventuras imaturas que ela está lá.
- E agora você vem até mim para que eu salve sua filha. Grande
ironia.
As lágrimas transbordavam dos olhos azul-cinzentos do
senhor, cabisbaixo e com uma de suas mãos segurando com força sua camisa do lado esquerdo do peito.
- Ela é meu coração. Compartilhamos nosso amor e nossa dor.
Eu a amo desde o dia em que ela nasceu. Salve-a! Por tudo que é mais sagrado nessas terras, salve-a!
- Se eu for jamais voltaremos.
Um silêncio tomou aquele lugar juntamente com o lamento do
vento. Nada foi dito enquanto o jovem se preparava para partir. Trouxe de trás da casa um cavalo arrebatador e nele montou. O senhor já em pé aproximou-se e pôs a mão no cavalo com seu olhar fixo no cavaleiro que disse:
- Eu direi a ela. – e partiu em seguida.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Parte I - A mensagem

O ressoar de sinos reverberaram no alto de uma torre, o amanhecer percorria vagarosamente as costas de uma linda montanha e o sol curioso já espreitava por ali. Em alguma das planícies repletas de altos e baixos do Vale da Aurora, com suas extensas plantações e pastos repletos de carneiros, o cheiro da comida das panelas de barro que saía das chaminés das casas esparsas era sentido de longe. Um galope ligeiro percorreu com seu condutor o caminho através de uma praça onde belas moças coletavam água de um poço não muito profundo, até uma magnífica casa de madeira no alto de uma colina, situada ao norte. O jovem desceu do cavalo e bateu na porta duas vezes, ele carregava consigo uma bolsa de couro marrom clara que atraia a atenção das crianças na varanda, mas sua atenção permanecia na porta e em seguida para a simpática dona que o convidou para entrar. Agradeceu o convite, entrou e foi guiado além de uma sala confortável para dentro de uma biblioteca onde um senhor de barbas brancas estava sentado numa poltrona, prontamente retirou uma carta de dentro da bolsa. Até aquele momento o senhor repousava seus olhos num livro de capa dura, erguida numa de suas mãos, e com a outra levava o cachimbo de cabo curto até a boca, porém teve sua leitura interrompida, então deixou o livro sobre a mesa e recebeu o papiro em suas mãos ainda com o olhar calmo e concentrado. Depois de entregue, o mensageiro moveu-se à cozinha para comer de uma broa e beber algo quente, acompanhado pela anfitriã, enquanto a biblioteca se enchia novamente de um silêncio apaziguador, contudo a expressão serena do senhor foi se dissipando a cada frase lida da mensagem.

sábado, 22 de novembro de 2008

Esmeralda

A noite estava estrelada. Chuva alguma era esperada. O frio rodeava um pequeno grupo de ciganos que se aqueciam perto de uma grande fogueira. Suas carroças e cavalos descansavam perto daquele circulo de festa que circundava a fogueira. Quem disse que a roda de madeira da carroça não descansa? Como diria o experiente viajante: a roda descansa de atazanar nossos ouvidos com seu reclame.
Um jovem rapaz desconhecia aqueles cantos. Jamais se desviou de uma trilha para acampar ao relento. Situação que não lhe agradaria em sua imaginação assoberbada de pensamentos urbanos. Que conforto poderia trazer uma noite longe de penachos de ganso bem armazenados dentro de um saco costurado e bem limpinho, pensou ele.
Mas, mesmo a vida de um cauteloso, era incerta. Ele foi tragado pelo acaso. Quem diria que lobos poderiam rodear aquela estrada? A manobra que seu cavalo usou para tentar encarar tais lobos o fez cair diante da matilha. Se não fosse uma habilidosa cigana com seu graveto em chamas, ele estaria entre os caninos dos lupinos. Tocha? Não. Foi realmente um graveto improvisado pra salvar a vida do viajante. Sentiu-se completamente indefeso. Era uma jovem que o salvara. Podia ver a luz das estrelas bruxuleando a silhueta de um corpo feminino. Sentiu-se envergonhado. Tinha a visão que as mulheres eram frágeis. Ser salvo por uma não ajudaria sua auto-estima.
Logo seus pensamentos lhe fugiram quando a jovem se aproximou dele. Ela se encurvou pra ver se seu protegido estava bem. Uma aura parecia brilhar em volta dos cabelos ruivos escuros. A lua parecia olhar diretamente para ela. Seus olhos verdes eram como esmeraldas perfeitamente redondas que lhe tragava para um mundo atemporal. O jovem sentiu um toque morno em sua mão e foi erguido pela mulher ali presente. A cigana acalmou o cavalo com sua melodiosa voz e então o conduziu para o grupo ali perto. Embora o jovem sentisse suas pernas fraquejarem ele sentiu um impulso a segui-la.
Lá estavam eles festejando em volta de uma grande fogueira. Havia risos e bebidas. Aconchego e pão. Engraçado como na sua maioria eram frutas, mas o desgosto por elas não atraiu a mente do rapaz. Todos ali exibiam porte de pessoas saudáveis, diferente do corpo magricela e pálido sob a luz do luar do visitante.
Cumprimentos aludiram à ruiva com uma onda que passa e que vem. Alegres em tê-la de volta fez com que uma música fogosa iniciasse. Sem pestanejar ela se preparou com alguns cascos na mão e começou a dançar.
A dança era envolvente. Silêncio entre os copos. Toda atenção ali voltada para as lindas esmeraldas reluzentes nas labaredas da fogueira. O quê seria aquilo? Um sonho talvez. Um sonho de uma noite de verão.